Testemunhos
Memórias de Mindelo contadas na primeira pessoa
Memórias de Mindelo contadas na primeira pessoa
Testemunho de Palmira Cruz, filha de José Cruz
• 5 de fevereiro de 2025Lembra-se de alguma música do Grupo Musical Luz e Aurora?
«Eu só me lembro de A Nossa Associação, a letra que fiz para essa música. A música era uma que o meu pai tinha. Eu fiz a letra para o rancho.
A nossa associação foi renovada em 76
Foi com todo o nosso esforço
Pois todos vós bem o sabeis
Vamos, gente de Mindelo,
Vamos trabalhar com muito amor
Que o rancho regional, o rancho regional,
Também tem o seu valor.
Vamos unidos, vamos trabalhar,
Que o nosso povo gosta de lutar.
Os de Mindelo também põem a mão,
De baixo e de cima, nesta associação.»
Lembra-se da letra original dessa música?
«Eles só tocavam. O meu pai tocava trombone. Havia ali um senhor de Paredes e esse tocava violino muito bem.»
Onde é que eles ensaiavam?
«Na nossa casa1. Era na sala.»
Chegou a dançar ou a cantar no rancho?
«Eu nunca andei a dançar e cantar também não cantava. Eu gostava mais era de teatro.»
Lembra-se de alguma peça em que tenha participado?
«Fizemos A Vida de Santo António:
Frei António, nosso amigo,
Nosso amparo e protetor,
Há de ser por nós levado
Para a cova no andor.
Do seu hábito um pedaço
Queremos todos alcançar,
Para [inint.]
Tal relíquia lhes levar.»
Em que ano fizeram essa peça?
«Eu era nova, era muito nova. Agora já estou com 90 anos.»
Testemunho de Maria Moreira Maia, sobrinha-neta de Corina Torres
• 29 de janeiro de 2025Que relação tinha com a dona Corina?
«Ela era tia do meu pai. O primeiro marido dela era desta casa. Ela casou com três homens e o primeiro marido era daqui desta casa, irmão do pai do meu pai.»
Que idade tinha quando ia à Vila Corina?
«Ora bem, eu ainda era novita. Não posso dizer bem, mas ainda demorou muito a eu casar [1966]. E então eu ia lá com o meu pai. Era assim: eu ia um sábado com o meu pai, que ela convidava, e outro sábado ia a minha mãe com o meu pai. Comíamos lá à noite. Era uma casa antiga, bonita.»
Que outras memórias tem da dona Corina?
«Eu sei que ela ia um tempo para a Póvoa de Varzim, tinha lá uma casa3. Eu sei que ela passava lá uns meses. Passava aqui em Mindelo e também ia a Lisboa. Nós também íamos à casa dela à Póvoa. Lá não tínhamos dias marcados, íamos de vez em quando. Aqui íamos todos os sábados. Quando era festa, ia lá o rancho dançar. Tinha um palco lá, ou os carpinteiros dela faziam. Tinha um carpinteiro que se chamava Cadete e outros não sei quem eram. Não sei se faziam o palco para o rancho dançar e depois tiravam. E então ia o rancho quando era festa lá dançar e ela gostava muito de ver aquele rancho a dançar. Sempre que havia festa, íamos lá, ou quando ela fazia anos ou pelo Natal, mas não era no dia da consoada, era fora do dia.»
A dona Corina vivia sozinha?
«Era só ela. Ah, também chegou uma irmã que era a dona Alice, que também viveu aqui com ela e também viveu na Póvoa. E ela tinha uma grande quinta em Braga.»
Tinha muitos criados lá?
«Tinha. Tinha uma cunhada minha, tinha uma outra criada, tinha uns na casa de baixo que pertence ao palácio. E então tinha lá uns feitores que faziam dois campos que ela tinha, ou quando era preciso botar madeira abaixo e assim. Tinha uns feitores e chegou a ter duas vacas lá em baixo. Quando era para deitar lenha abaixo, os sobrinhos é que iam lá para trazer com o carro de bois a uma bouça que ela tinha e depois iam lá todos à noite comer naquela cozinha lá em baixo, que era de andar com a roupa do serviço, iam todos lá comer e assim. E também tinha um campo em frente ao palácio, um campo grande, era dela.»
Lembra-se da casa sempre assim?
«Não me lembra de ali construir nada. Desde que eu era grandinha, não me lembra. Ela agora está restaurada, mas antes de estar restaurada, a minha mãe até dizia: naquela casa, ainda se vai ver chapéus de palha a tapar os vidros das janelas. Às vezes, dizia isso. E são assim as lembranças que tenho dela.»
Testemunho de Rosa Sampaio
• 12 de fevereiro de 2025«Eu era visita. Ia com a minha avó. Era norma, na Páscoa, a minha avó ir visitar a dona Corina e levava-se uma cesta com dois galos. Eu ia com a minha avó, pequenita. Mas eu lembro-me de tudo, de ela pegar em mim para eu dar um beijinho à senhora porque ela estava na cama, já sem cabelo, já muito branquinha.»
Testemunho de Rosângela Cruz, neta de José Cruz
• 30 de janeiro de 2025«O meu avô atava um nagalho às pernas da criança, com espaço para ficarem separadas, e punha-a em cima do banco de carpinteiro. Quando dava o meio-dia na igreja, benziam-se e dizia: Conforme o meio-dia está a dar, eu corto o medo desta criança para ela começar a andar. Depois, cortava o nagalho com uma enxó e rezava um padre-nosso.»
Testemunho de Palmira Cruz, filha de José Cruz
• 5 de fevereiro de 2025«Assim como o meio-dia está a dar, eu corto o medo a esta criança para ela começar a andar. As pessoas tinham tanta fé com aquilo!»
A criança tinha um nagalho amarrado às pernas?
«Era, era. E depois cortava-se com a enxó. E tinha que ser um José. Não podia ser um António ou isso. Era São José. São José e o Menino Jesus. Era ao meio-dia, quando dava as doze horas. Ele fazia na nossa casa4.»